Crase

CRASE ACENTO GRAVE


"à francesa"


Como escrever: "Bife à parmegiana" ou "bife a parmegiana"? Ou então: "lula à provençal" ou "lula a provençal"? O caso parece enigmático especialmente porque as palavras que se seguem ao a são adjetivos, termos que não se acompanham de artigos. Sabemos que, para haver a crase, é necessária a presença da preposição a e a presença do artigo feminino a.

Ocorre que, nas construções acima, estão subentendidas as expressão à moda de, à maneira de:

Bife à moda parmegiana
Lula à moda provençal

Elas são grafadas com crase porque trazem implícita a expressão "à moda de", locução adverbial feminina. E sabemos que as locuções adverbiais femininas costumam ser craseadas. Vejamos outros exemplos em que aparece essa forma:

Eles saíram à francesa da festa. (= Eles saíram à maneira francesa da festa.)
Eliana calçava um sapato à Luís XV. (= Eliana calçava um sapato à mode de Luís XV.)

"À francesa", "à Luís XV": nesses casos, as palavras moda ou maneira estão subentendidas. Assim, o a leva acento indicador de crase.

 

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ACENTO GRAVE


"à beça", "às vezes"


Crase é uma palavra grega que significa fusão. No caso, a fusão de um "a" com outro "a". Comumente, da preposição "a" com o artigo "a". Assim, crase é o fenômeno da língua, o fenômeno da fusão, que é assinalado com o acento grave.

Portanto a "crase", tecnicamente, NÃO É o nome do acento. Na verdade, o acento chama-se grave.

Atente para o verso abaixo, tirado da canção "Morro Velho", de Milton Nascimento:

... some longe o trenzinho ao Deus-dará...

"Ao" seria a fusão de "a" mais "o". Ao Deus-dará, ao acaso, ao sabor do destino. Nas expressões masculinas somam-se as vogais, em vez de fundi-las. Não há a fusão porque as vogais são diferentes. E o que aconteceria nas expressões femininas equivalentes?

Djavam responde na sua canção "Se":

... você me diz à beça e eu nessa de horror...

A expressão " à beça" indica intensidade. No caso, significa "você me diz muito". Como também é uma expressão feminina, temos a mais a. Logo, fundimos as vogais iguais e chegamos ao "a" com acento grave: "à".

Veja esta letra, da canção "A Promessa", gravada pelos Engenheiros do Hawaii:

...Estou ligado a cabo a tudo que acaba de acontecer.
Propaganda é a alma do negócio:
no nosso peito bate um alvo muito fácil.
Mira a laser... miragem de consumo
latas e litros de paz teleguiada...

Será "a cabo" ou "à cabo" ? Observe que "cabo" é palavra masculina, que não poderia ser precedida pelo artigo "a". Portanto "a cabo" não leva o acento indicativo de crase porque não houve nenhuma fusão.

Na mesma letra, temos as expressões "a tudo" e "a laser". "Tudo" e "laser" também não são palavras femininas. A primeira é pronome e a segunda é substantivo masculino. Assim, não existe fusão entre preposição e artigo porque nem "tudo" nem "laser" são precedidas pelo artigo feminino a. Portanto o que os antecede é somente preposição.

E a expressão "às vezes" levaria crase? Vejamos como procederam os Engenheiros do Hawaii na canção "Às vezes nunca":

Tô sempre escrevendo cartas que nunca vou mandar
pra amores secretos, revistas semanais e deputados federais.
Às vezes nunca sei se "às vezes" leva crase
às vezes nunca sei em que ponto acaba a frase...

Notem que a canção tem teor metalingüístico. Tematiza-se a própria indecisão em colocar crase em "às vezes". Trata-se de expressão adverbial feminina de tempo. Ao substituirmos essa expressão por uma equivalente com palavra masculina, usamos ao em vez de às:

Faço ginástica apenas aos sábados.
Aos domingos, visito minha avó.

Portanto, na expressão "às vezes", formada por palavra feminina ("vez"), a crase será de rigor já que ocorre a fusão entre artigo e preposição. Devemos usar o acento grave indicador de crase.
É importante prestar atenção no sentido que "vezes" possui na frase. Por exemplo:

Eu faço as vezes de médico.

Nesse caso não existe acento, já que "vezes" tem significado completamente diferente: "Eu faço o papel de médico". "Às vezes" só leva acento nos casos em que indica tempo.

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CRASE EM ADJUNTO

ADVERBIAL FEMININO


Os adjuntos adverbiais de instrumento recebem crase. Mas será que esse é também o caso de "escrever à maquina"? As expressões adverbiais femininas costumam ser grafadas com acento grave no "a" ou no "as". São muitas as expressões. Veja algumas:

Fique à vontade.
Às vezes eu visito a minha tia.
A cidade ficou às escuras.
Vamos conversar às claras.

Expressões adverbiais femininas costumam ser grafadas com acento grave indicador de crase no "a" ou no "as".

Quando se trata de instrumento ou meio, caso de "a máquina", há divergências entre os gramáticos. Alguns argumentam que ninguém diz, por exemplo, que o barco é "ao remo", e sim que o barco é "a remo"; do mesmo modo, um barco não pode ser "ao vapor", e sim "a vapor"; não se escreve algo "ao lápis", e sim "a lápis". Seria coerente com isso, portanto, que não acentuássemos o "a" ou "as" das expressões femininas que indicassem instrumento. Portanto seria adequado não colocar o acento.

Outros argumentam, porém, que, se as demais expressões adverbiais femininas recebem crase, as designadoras de instrumento ou meio também devem receber.

Então o que fazer? Uma vez que não há consenso sobre essa questão, seria admissível tanto usar a crase como não usá-la em adjuntos similares a "à máquina". Mas cuidado: esse uso facultativo só é possível em relação a adjuntos adverbiais de meio ou instrumento. Nas demais expressões adverbiais com palavras femininas, a crase é obrigatória.

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Oração reduzida

"Precisando, telefone."

 

Você já deve ter ouvido falar em "oração reduzida". Observe as estruturas abaixo:

Quando você fizer tal coisa
Ao fazer tal coisa

No primeiro caso o verbo "fazer" está no futuro do subjuntivo.

No segundo, eliminamos a conjunção "quando" e não conjugamos o verbo "fazer", deixando-o no infinitivo. Em suma, reduzimos a oração. Ela tem o mesmo valor que a outra, mas está numa forma comprimida.

Veja outro exemplo:

Precisando, telefone.

A frase acima possui duas orações. A primeira, "precisando", pode ser desdobrada, isto é, descomprimida:

Se precisar, telefone.
Quando precisar, telefone.

Passamos a usar as conjunções "se" ou "quando" e a oração deixa de ser reduzida.

Quando usamos verbos no gerúndio ( falando, bebendo, partindo), no infinitivo ( falar, beber, partir ) ou no particípio ( falado, bebido, partido ), não se usam conjunções, como se e quando, elementos que introduzem a oração. Esta seria iniciada diretamente pelo verbo.

Veja o fragmento de uma letra de Caetano Veloso e Gilberto Gil:

No dia em que eu vim m'embora
... sentia apenas que a mala de couro que eu carregava
embora estando forrada fedia, cheirava mal...

"Estando" é gerúndio e o gerúndio estabelece a oração reduzida. Logo, nessa letra a conjunção "embora" não poderia ter sido usada com o gerúndio.
Ficaria assim:

... sentia apenas que a mala de couro que eu carregava,
embora forrada, fedia, cheirava mal...

No caso, houve uma distração. Não pode ser abonado pela norma culta.

Outro caso, em português a oração reduzida começa pelo verbo:

Muita gente fala: "Isso posto, vamos ao que interessa.". Errado.
O correto é "Posto isso, vamos ao que interessa."
Não se diz "A questão discutida, passamos ao item seguinte".
Diz-se "Discutida a questão, passamos ao item seguinte."

Oração reduzida sempre começa com o verbo no gerúndio, no particípio ou no infinitivo.

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Uso da vírgula

 

Como usar a vírgula? Seu uso está relacionado à respiração?

Não, a vírgula depende da estrutura sintática da oração. A pausa que fazemos na fala nem sempre corresponde à pausa na escrita.

O "Nossa Língua Portuguesa" interrogou pessoas na rua a propósito desse tema. Pediu-se que colocassem vírgulas no seguinte texto:

O diretor de Recursos Humanos da Empresa Brasileira de Correios
e Telégrafos declarou que não haverá demissões neste mês.

A maioria dos entrevistados acertou. Não há vírgula na frase acima, por maior que ela seja.

"O diretor de Recursos Humanos da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos" é o sujeito do verbo "declarar". Foi ele, o diretor, que declarou.

Entre sujeito e verbo não há vírgula.

Na seqüência temos " ...que não haverá demissões neste mês". Trata-se de objeto direto em forma de oração. Ele complementa o verbo "declarar" —declarou o quê? Que não haverá demissões.


Mas, às vezes, a vírgula pode decidir o sentido do texto. Assim, como pontuaríamos a frase abaixo?

Irás voltarás não morrerás

A pontuação depende do sentido que se quer dar:

Irás. Voltarás. Não morrerás.
Irás. Voltarás? Não. Morrerás.

A diferença entre uma e outra oração salta aos olhos, não é?

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